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Avaliação neurocognitiva na doença de Parkinson

Atualizado: 13 de mar.

A investigação dos déficits cognitivos na doença de Parkinson (DP) revela uma complexidade e heterogeneidade consideráveis, sugerindo a existência de distintas trajetórias de comprometimento. A hipótese da "Síndrome Dual" propõe que esses déficits sejam categorizados em dois principais domínios: o frontal-estriatal, abrangendo funções como atenção, memória operacional e funções executivas; e o cortical posterior, incluindo memória de reconhecimento e habilidades visuoespaciais. Tal divisão sugere a possibilidade de identificar os tipos de comprometimento cognitivo através de testes neuropsicológicos específicos, enfatizando a necessidade de uma abordagem diferenciada no diagnóstico e tratamento.





Além disso, o conceito de Comprometimento Cognitivo Leve (CCL) é crucial para entender a transição entre o envelhecimento normal e a demência. Esse construto representa um estágio intermédio de declínio cognitivo, sendo inicialmente focado no prejuízo da memória. No entanto, com o passar do tempo, a definição de CCL foi ampliada para incluir uma variedade mais ampla de domínios cognitivos. As atualizações conceituais e diagnósticas buscam refinar a identificação de indivíduos em risco de desenvolver demências mais graves, como a doença de Alzheimer.


No contexto da DP, critérios diagnósticos específicos foram desenvolvidos para padronizar a identificação de transtornos cognitivos, incluindo o Comprometimento Cognitivo Leve associado à DP (DP-CCL). Estes critérios visam melhorar a precisão diagnóstica e facilitar a comunicação entre profissionais, delineando a necessidade de avaliações neuropsicológicas detalhadas para a identificação dos subtipos de DP-CCL.

A avaliação neuropsicológica desempenha um papel fundamental na caracterização dos déficits cognitivos na DP, com a Sociedade Internacional de Parkinson e Transtornos do Movimento (MDS) recomendando uma série de instrumentos e baterias neuropsicológicas. Estas avaliações permitem um diagnóstico mais preciso dos déficits cognitivos específicos à DP, contribuindo para um tratamento e manejo mais personalizado da doença.


Segue uma tabela resumindo os testes cognitivos recomendados pela MDS para a avaliação de comprometimento cognitivo na DP, abrangendo diversos domínios cognitivos:

Domínio

Instrumentos cognitivos sugeridos

Atenção/memória operacional

Sequência de letras e números, Códigos, Teste das trilhas (Parte A e B), Span de dígitos direto e inverso, Teste de Stroop de cores e palavras

Funções executivas

Teste de Cartas de Wisconsin, Torre de Londres ou Stockings de Cambridge, Fluência verbal fonêmica ou semântica/categórica

Linguagem

Semelhanças, Tarefas de nomeação por confronto visual (Boston ou similar)

Memória

Testes com aprendizado de lista de palavras, evocação livre e reconhecimento, como, por exemplo, Teste de Aprendizado Auditivo Verbal de Rey (RAVLT)

Teste de Aprendizado Verbal da California (CVLT)

Teste de Aprendizado Verbal de Hopkins (HVLT)

Teste de Evocação Seletiva de Buschke (SRT)

Funções visuoespaciais

Julgamento de Orientação de Linhas de Benton, Teste de Organização Visual de Hooper, Cópia do desenho do Relógio


Os critérios para diagnosticar o Comprometimento Cognitivo Leve (CCL) evoluíram ao longo dos anos, refletindo um entendimento mais profundo da complexidade da condição e seu potencial de progressão para demência.


Os critérios iniciais desenvolvidos por Petersen concentram-se na presença de comprometimento da memória mais severo do que o esperado para a idade e nível educacional do indivíduo, mas que não interfere significativamente nas atividades diárias. Este quadro enfatiza reclamações de memória subjetiva, preferencialmente corroboradas por um informante, ao lado da preservação da função cognitiva geral e ausência de demência.


O Grupo de Trabalho Internacional sobre CCL expandiu os critérios para abranger comprometimentos além da memória, reconhecendo que o CCL pode afetar uma variedade de domínios cognitivos. Esta abordagem mais ampla permite a inclusão de indivíduos com déficits em áreas como linguagem, função executiva e habilidades visuoespaciais, reconhecendo assim a natureza heterogênea do CCL.


O DSM-5 categoriza o CCL sob o termo mais amplo "Transtorno Neurocognitivo Leve", especificando que a condição implica um declínio cognitivo modesto de um nível anterior de desempenho em um ou mais domínios cognitivos. Estes domínios incluem atenção complexa, função executiva, aprendizado e memória, linguagem, função percepto-motora e cognição social. Os critérios sublinham que tais declínios não interferem significativamente no funcionamento diário e não atendem aos critérios para demência. Esta classificação introduz uma abordagem estruturada para diagnosticar transtornos cognitivos, destacando a importância do julgamento clínico e avaliações neuropsicológicas padronizadas.


Comparativamente, os critérios da Sociedade Internacional de Parkinson e Transtornos do Movimento (MDS) para o diagnóstico de CCL na doença de Parkinson (DP-CCL) seguem uma estrutura específica, incluindo:


  1. Critérios de Inclusão:

  • Diagnóstico de DP conforme os critérios do Banco de Cérebros de Londres.

  • Déficit cognitivo gradual observado pelo acompanhante, pelo paciente ou pelo médico.

  • Baixo desempenho em pelo menos dois testes de uma bateria neuropsicológica breve, abrangendo pelo menos cinco domínios cognitivos testados.

  1. Critérios de Exclusão:

  • Diagnóstico de Demência conforme os critérios da MDS.

  • Outras explicações para o déficit cognitivo, como delirium, acidente vascular cerebral, anormalidades metabólicas, efeitos colaterais de medicamentos, ou traumatismo craniano.

  1. Diretrizes Categóricas:

  • Nível I (triagem) envolve baixo desempenho em teste cognitivo global de rastreio validado para a DP.

  • Nível II (completa) requer testagem neuropsicológica em cinco domínios (atenção e memória operacional, função visuoespacial, função executiva, memória e linguagem), com desempenho inferior em pelo menos dois testes.

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